Em dezembro do ano passado, como de costume, a agora Eletrobras Distribuição Alagoas (EDAL), antiga CEAL, deu início a uma campanha contra a inadimplência pretendendo resgatar débitos de usuários para com a empresa. “Não tem perdão a ninguém” diz, taxativamente, a companhia.
De fato, não perdoaram prestadores de serviços públicos como escolas e prédios administrativos vinculados a prefeituras municipais, grandes hospitais, como o Hospital do Açúcar e o Sanatório e edificações ligadas ao sistema de fornecimento de água e saneamento. Não perdoaram também a população, vitimizada pela violência do corte de energia e da negação ao crédito, ao passar a compor as listas do SPC/SERASA.
Porém, tal intransigência parece “amolecer” quando o devedor trata-se do governador do estado. A Usina Seresta, pertencente a família do Governador Teotônio Vilela Filho, do PSDB, encabeça a lista dos maiores devedores com o total de R$ 30,5 milhões. Logo atrás encontra-se o ex-senador João Tenório, também do PSDB, dono da Usina Triunfo, que guarda uma dívida de R$ 18,9 milhões, tomando o quarto lugar na lista. Somando a dívidas dos usineiros com a distribuidora de energia, são R$ 155 milhões. Boa parte destas dívidas existe, inclusive, com o aval do Poder Judiciário, pois são sustentadas por liminares concedidas por Juízes “sensíveis” à causa dos usineiros.
Sucateamento e privatização
A interrupção no fornecimento de energia elétrica já faz parte do cotidiano do alagoano. No ano passado foram registrados três apagões, além das inúmeras interrupções eventuais a que o consumidor de energia é vítima diariamente.
A Eletrobras Alagoas guarda, historicamente, um déficit de investimentos que resultam na péssima qualidade do seu sistema de distribuição. Subestações e transformadores em número e capacidade insuficiente para atender a demanda da população, fios que se desmancham nas mãos dos técnicos eletricistas, falta de ramal de serviço para atender aos novos consumidores são alguns dos problemas enfrentados pela distribuidora.
O que, aparentemente, justificou a falta de investimentos foi a forçosa ameaça de privatização que a, na época, CEAL, passava. “Se vai privatizar, pra quê investir?” era o que se dizia. Privatização esta, dificultada por um passivo trabalhista de mais de 700 milhões de reais decorrente do Plano Bresser. Apesar de ainda persistir estas dívidas com os trabalhadores e dos investimentos prometidos pelo governo Dilma nas distribuidoras, a possibilidade de privatização continua sendo uma realidade. O governo federal deixou claro sua intenção ao oferecer as distribuidoras, dentre elas a EDAL, em uma transação internacional para a compra da EDP, estatal da área de energia de Portugal. A manutenção do então ministro de minas e energia, Edson Lobão, defensor histórico das privatizações, deixa a escolha pela privatização ainda mais evidente.
Os usineiros, ao praticar o “calote” com o aval da justiça, se eximem de aportar para os investimentos necessários para reverter a situação, diferentemente do restante da população, que é obrigada a dispor de seu parcos recursos sob pena de ter sua energia interrompida.
Uma das tarifas mais caras do mundo
O consumidor de energia brasileiro é obrigado a pagar a terceira conta de energia mais cara do mundo. Seu valor é 50% maior do que a média mundial e do que os também países emergentes, como Rússia e China.
A carga tributária embutida na conta de energia chega ao absurdo de 45,08% de seu valor. Em arrecadação, trata-se de R$ 63 bilhões somente em 2011. Certamente, como mostram a destinação das verbas públicas federais, parte deste dinheiro se destinará a compor o superávit primário que será utilizado para despejar o dinheiro do trabalhador nas mãos dos banqueiros.
Estes altos valores pesam no bolso de quem de fato tem de bancar o sistema elétrico brasileiro: o trabalhador.
Um estado contra os trabalhadores e a serviço dos usineiros
Faz parte da memória dos alagoanos o que eles fizeram com o PRODUBAN (banco do estado de Alagoas, que faliu por conta do calote dos usineiros), também é familiar aos conterrâneos os nomes das várias investigações da polícia federal envolvendo esquemas de corrupção, como a Operação Taturana, Operação Navalha e a Operação Gabiru. Recentemente foi necessário que fosse feito um termo de ajuste de conduta por parte do Ministério Público para que o poder público estadual entregasse uma quantidade meramente simbólica das casas, precariamente construídas, aos atingidos pelas cheias do ano retrasado.
O caso das dívidas com a Eletrobras também segue esta lógica. Aos que gozam de pertencer ao ciclo de influência dos usineiros, representados pelo governador, acesso irrestrito a bens públicos sem contrapartida. Aos que ali não se encontram, é dada a tarefa de bancar esses privilégios e sofrer a violência estatal nas suas mais variadas formas.
O povo alagoano não pode mais conceder sua confiança aos responsáveis pela sua própria miséria!
Por um novo modelo energético, a serviço e sob o controle dos trabalhadores!
Contra mais um calote dos usineiros!
Que os ricos paguem pela energia!
Fora o governo dos usineiros! Por um governo dos trabalhadores!